As pulgas continuam sonhando em comprar um cão.
E as pessoas continuam morrendo para sobreviver.
Os mendigos disputando lugar com os marginais.
Os filhos de ninguém disputando uma vaga de fome em filas quilométricas que os olhos não alcançam.
Os sem nome morrendo de fome, de frio, de dor.
Mas quem se importa? Eles não têm nome.
A bicha morrendo apedrejada, mas falando a verdade.
Acho que ela provocou.
A criança sendo abusada, espancada, humilhada.
Mas não dá nada, criança não tem que decidir.
A mãe passando fome para dar de comer aos filhos.
Mas por que foi ter? Não sabia que era pobre?
O jovem que não quer estudar.
Mas nem precisa. Depois, quem vai capinar meu jardim?
Os ninguém que não fazem nada.
As balas dos policiais que continuam acertando os mesmos tons de pele.
Mas que nada, eles atiraram primeiro.
Os ninguéns, os donos de nada, os que carecem de tudo.
Carecem de educação para baixar a cabeça.
Carecem da generosidade para comer sobras.
Carecem da fé para poder levantar da cama.
Os ninguéns que fazem o trabalho pesado.
Que riem de tudo que é engraçado.
Que nunca podem estar cansados.
E Deus me livre, estressados.
Os ninguéns que contam com a caridade, com a bondade.
Os ninguéns que não são vistos, mas dão votos.
Os ninguéns que nem existem.
Os ninguéns que existiram.
Os ninguéns que resistem.