São 18h. Ao longe, escuto o badalar do sino da capela. Nesse mesmo instante, viajo para dentro da minha infância, lembrando as palavras da minha vó:
“É hora da misericórdia, é hora da Ave Maria.”
É como se pudesse vê-la ajoelhada, pedindo algumas coisas que, na época, uma criança não via tanto sentido, e agradecendo de forma tão pura pela vida, pela saúde, pelos filhos, netos, vizinhos, irmãos... uma sequência infinita de agradecimentos.
E aquilo que foi marcado em minha memória como demonstração de gratidão e amor ainda hoje faz meu coração parar em reverência a uma fé que curou dores e que carregou vidas. Ainda que eu não a pratique da mesma forma.
O que ficará na lembrança daqueles que convivem comigo?
Eu não sei...
O que ficou na minha lembrança daqueles que comigo conviveram?
Ah, isso eu sei falar.
As férias na casa da vó e as correrias pelo quintal com os primos, quase todos de pés descalços ou com chinelos consertados com pregos. Simmm, naquele tempo o prego também tinha essa função! Rsrsr.
As risadas que chegavam a doer a barriga, compartilhadas com os amigos na calçada em frente de casa até amanhecer o dia.
As procissões em dia santo, acompanhadas por cantoria, rezas e, por que não, namoro longe dos olhos dos pais.
A ida pra escola com os melhores amigos que alguém poderia ter na vida.
As brigas na escola com os maiores inimigos que alguém poderia ter no mundo.
As festas onde todo mundo levava um prato. Ah, os meninos, eles levavam o refri.
Os cadernos de poesia e também os que confidenciavam nossos segredos. E como tínhamos segredos, que, no final, não eram segredos para ninguém.
As danças em passinhos sincronizados, treinados no sábado à tarde, depois da faxina na casa.
As roupas emprestadas das amigas e as reclamações das mães ao saber.
Os grupinhos tão marcados pelas diferenças.
O time de futebol que reunia o bairro todo à beira do campo nos domingos.
Os amigos que, no decorrer da caminhada, acabaram partindo e deixando um vazio inexplicável e uma incredulidade por serem tão jovens e ainda terem tanto para viver.
Amigos que fizeram tanta, mas tanta falta, que até hoje os olhos choram por não tê-los.
As mil e uma noites sofrendo por um amor que jurava ser eterno.
As outras tantas mil e uma noites dançando sem pensar no dia seguinte.
O que ficou marcado na memória foi tudo aquilo que foi vivido, seja de dor, seja de amor.
O que fica é sempre o que foi vivido. Nada que fica na lembrança tem preço. Tudo o que ficou tinha valor.
O valor das pessoas, dos encontros, dos desencontros, das histórias, das risadas, das lágrimas, dos abraços, das derrotas, dos aprendizados.
O que fica na lembrança é tudo aquilo onde seu coração esteve.
O que ficará na lembrança é tudo aquilo onde seu coração está.