A toalhinha de crochê
Eu costumo dizer aos meus pacientes que nossa vida pode ser comparada a uma toalhinha de crochê.
Somos construídos pelas mãos de alguém. E, por mais que essa pessoa use os mesmos pontos em diferentes toalhinhas, nenhuma delas será igual à outra.
É justamente nos pequenos buraquinhos, nos desenhos, nas diferenças entre os pontos, que mora a beleza. É isso que nos diferencia, que nos torna singulares.
Somos únicos. E isso é mágico.
Mas, às vezes, enquanto estamos sendo construídos, um pontinho se perde.
E aquilo que deveria ser apenas um pequeno detalhe pode, com o tempo, transformar-se em um buraco cada vez maior.
Quanto mais tempo passa sem que aquele ponto seja resgatado, maior pode se tornar a falta que ele deixa.
E, quando olhamos para nós mesmos, é para esse lugar que os nossos olhos insistem em voltar.
Para o ponto que não está.
Para aquilo que falta.
Talvez esse buraco tenha crescido tanto que até alguém que não entende absolutamente nada de crochê consiga percebê-lo.
Talvez nem nós saibamos explicar o que está faltando. Talvez não saibamos dar um nome àquilo que sentimos.
Mas sabemos que existe uma falta.
E se engana quem pensa que todo ponto perdido precisa, necessariamente, ser resgatado.
Às vezes, passa-se uma vida inteira olhando para aquele vazio sem nunca voltar para buscá-lo.
E não, você não tem obrigação de fazer esse resgate.
Mas, se esse vazio dói, se ele incomoda, se você sente que gostaria de se olhar no espelho e se reconhecer um pouco mais inteira, talvez valha a pena voltar.
Voltar para buscar aquele ponto.
Porque somos seres desejantes.
E isso, por si só, já cria um pequeno buraquinho em nossa trama.
Quando finalmente conquistamos aquilo que desejávamos tanto, quase sempre surge um novo desejo. Um novo ponto. Uma nova direção.
Por isso, esperar que a vida seja completamente fechada, perfeitamente preenchida, sem nenhum espaço vazio, é como querer voar sem asas — ainda que sejam artificiais.
Talvez a nossa tarefa não seja eliminar todos os buraquinhos.
Talvez seja aprender a olhar para eles com amor.
Respeitar nossas falhas.
Reconhecer que algumas delas também participaram da construção de quem somos.
Mas, se existe uma falta grande demais, se aquele ponto perdido continua produzindo sofrimento, talvez seja hora de voltar.
E resgatar você mesma.
Porque hoje você já pode crochetar a sua própria história.
Pode escolher novos pontos.
Pode refazer alguns.
Pode criar outros.
Mas nunca se esqueça:
a sua história não precisa ser perfeita para ser bonita.
Ela é feita de buraquinhos.
É feita de pontos que deram certo e de pontos que se perderam.
É feita de faltas.
É feita de encontros.
É feita de desejos.
E talvez seja justamente isso que faça dela sua.