Quando voltei naquela casa, estava tudo no lugar:
o mesmo bule,
as mesmas plantas,
a mesma música a tocar.
Me vi de novo em meu passado
e me deu medo voltar,
mas agora é diferente:
é um adulto a entrar.
Olhei por tudo com cuidado,
nada podia passar.
Os olhos críticos que antes me olhavam
agora mal podiam me enxergar.
Corri para o quarto, angustiada,
pensando no que poderia encontrar.
E, quando cheguei, que surpresa:
vi minha criança a chorar.
De novo veio a dor,
o medo,
o desamor.
E, com o coração batendo descompassado,
sem saber se faria certo ou errado,
fui correndo a abraçar.
Naquele momento de tanta acolhida,
do sofrimento de uma vida,
já não sabia quem estava sendo curado:
se a criança que em mim vivia
ou o adulto que em mim morava.
Com amor, deixei-a em segurança
naquela casa de tantas lembranças.
E agora, olhando com cuidado,
posso até levá-la ao gramado,
de grama nem sempre verdinha,
onde eu brincava de casinha,
num tempo que, por toda a vida,
tentei deixar guardado,
num tempo que hoje, com amor,
digo que foi meu passado...