Poema

Segue o teu caminho

Mulher carregando um balde na cabeça por uma estrada de terra, acompanhada por um cachorro.

Levanta todo dia,
pinta a cara de alegria
e sai para trabalhar.

Acorda já cansada,
de tanto levar porrada
de uma vida desgraçada,
mas insiste em não reclamar.

Amanhece diferente,
lembrando daquela gente
que, vista como indigente,
não se cansa de lutar.

Vai de ônibus lotado,
tão cheio e apertado,
quase impossível ir sentado,
mas dá para conversar.

Chega na casa da patroa,
que até é gente boa,
e um café deixa-a tomar.

Arruma com cuidado
tudo o que está bagunçado,
lembrando de vez em quando
que lá na sua casa
as crianças vão se virando.

Na hora do almoço,
já com a barriga nas costas,
espera todos se servirem.
Mas isso não é nada.
O que a deixa arrasada
é saber que, em sua casa,
o gás está para acabar.

Escuta as queixas do patrão,
que esse ano não está bom
para na bolsa aplicar,
que o dólar está nas alturas
e que vai ser uma loucura
se acaso não viajar.

Apega-se à sua fé
para não desmoronar,
mas isso não impedia
que as lágrimas, em alguns dias,
insistissem em brotar.

Já no final do dia,
um misto de cansaço e alegria,
pois para casa voltaria
e outra jornada começaria.

A mesma viagem da manhã,
só que agora com peso dobrado.

Chega em casa bem contente
e disfarça para toda gente
a dor do caminhar.

Arruma a casa e as crianças
e não perde a esperança
de a vida melhorar.

E, por mais que não deseja,
ainda vai para o CEBJA
para um futuro buscar.

E, em meio a livros e pessoas,
encontra coisas tão boas
que nem sabe explicar.

E bem naquele dia,
em que foi uma correria,
encontra uma poesia
que a faz viajar...

E quem ouve não diria
que a famosa poesia
poderia melhorar.

Ela ajeita o que era belo,
como uma rainha em seu castelo,
parafraseando, agora está:

“Segue o teu caminho.

Rega tuas plantas.

Ama tuas rosas
e, com elas, seus espinhos.

O resto é sombra de árvores alheias,
e aquele que não peleia
não merece descansar...”

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